Por Pablo Diego Regino — fundador e diretor da livrosdematematica.com
No final do século XIX, Henri Poincaré dedicou-se a um problema que desafiava os matemáticos: compreender o movimento de três corpos celestes sujeitos à atração gravitacional mútua. O movimento de dois corpos admitia uma descrição matemática bem estabelecida. Quando um terceiro corpo era introduzido, porém, o problema ganhava uma complexidade inteiramente diferente.
Os trabalhos de Poincaré mostraram que, mesmo quando não existe uma fórmula capaz de descrever explicitamente cada instante do movimento, ainda é possível investigar como as soluções se comportam. Elas permanecem estáveis? Repetem determinados padrões? Tornam-se extremamente sensíveis às condições iniciais?
Essa mudança de perspectiva — da pergunta “qual é a solução?” para “como as soluções se comportam?” — teve papel decisivo no desenvolvimento do campo que hoje conhecemos como sistemas dinâmicos.
Quase um século e meio depois, essa tradição matemática aparece no centro de uma notícia editorial brasileira. Em 14 de julho de 2026, a Câmara Brasileira do Livro anunciou os semifinalistas da terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico. Entre os dez títulos selecionados na categoria Matemática, Probabilidade e Estatística está Introdução aos Sistemas Dinâmicos, de Yuri Lima, publicado pela Sociedade Brasileira de Matemática.
A indicação é uma boa notícia para o autor e para a editora. Mas também oferece uma oportunidade de apresentar a um público mais amplo um campo da matemática dedicado a uma das perguntas mais persistentes da ciência: como as coisas mudam ao longo do tempo?
A matemática do movimento
Um sistema dinâmico pode ser entendido, em termos gerais, como um estado que evolui de acordo com determinada regra. O planeta que orbita, o pêndulo que oscila, uma população que cresce e diminui ou uma transformação matemática aplicada repetidamente ao mesmo espaço podem ser estudados dentro dessa perspectiva.
O interesse não está necessariamente em prever cada instante da evolução, mas em compreender o comportamento global do sistema. Existe equilíbrio? Determinados estados voltam a ocorrer? Pequenas diferenças nas condições iniciais produzem trajetórias completamente distintas?
Embora suas origens estejam ligadas às equações diferenciais e à mecânica celeste, o campo desenvolveu relações com diversas áreas da matemática.
Uma de suas ferramentas mais expressivas é a dinâmica simbólica, que permite representar a evolução de certos sistemas por meio de sequências de símbolos. É como se um movimento geométrico ou contínuo pudesse ser traduzido, etapa por etapa, para um alfabeto finito.
Essa tradução estabelece conexões com a teoria dos números e a combinatória, mostrando como uma área que nasceu de problemas relacionados ao movimento dos corpos celestes pode dialogar com estruturas discretas e propriedades aritméticas.
Um caminho de entrada na área
É esse percurso entre questões clássicas e temas contemporâneos que o texto de Yuri Lima se propõe a apresentar.
De acordo com a descrição editorial da Sociedade Brasileira de Matemática, o leitor parte das equações diferenciais e da mecânica celeste e avança pelo estudo de transformações do intervalo e do círculo até chegar aos shifts topológicos de Markov, no território da dinâmica simbólica. Ao longo desse caminho, aparecem também conexões com a teoria dos números e a combinatória.
Publicado em 2025, o volume possui 178 páginas e integra a Coleção Iniciação Científica da SBM. A editora o indica para estudantes do final da graduação e do início da pós-graduação, com poucos pré-requisitos.
Esse posicionamento editorial merece atenção. Há um momento da formação matemática em que os livros das disciplinas básicas já não são suficientes, enquanto muitos tratados especializados ainda podem parecer distantes. É nessa transição que costumam surgir os projetos de iniciação científica, os primeiros seminários e o contato mais direto com temas de pesquisa.
Um texto introdutório destinado a esse estágio não transmite apenas definições, resultados e métodos. Ele também apresenta uma linguagem, uma maneira de formular problemas e um modo de pensar característico da área.
Quando esse texto é escrito em português por um pesquisador atuante, pode funcionar como ponto de aproximação entre a formação universitária e a literatura especializada.
Os primeiros registros de circulação do título apontam nessa direção. O lançamento ocorreu durante a 8ª Escola Brasileira de Sistemas Dinâmicos, realizada no IMPA em novembro de 2025, evento que reuniu mais de 190 participantes. O livro também apareceu na bibliografia de um minicurso da SeMAP 2026, promovida pelo IME-USP.
Yuri Lima e a pesquisa em sistemas dinâmicos
Yuri Gomes Lima é Professor Titular do Departamento de Matemática do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo.
Graduou-se em Matemática pela Universidade Federal do Ceará, onde também concluiu o mestrado. Em 2011, obteve o doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada.
Ao longo de sua trajetória acadêmica, passou por instituições como o Weizmann Institute of Science, em Israel, a University of Maryland, nos Estados Unidos, e a Université Paris-Sud 11, na França. Entre 2017 e 2024, foi Professor Adjunto da UFC, antes de assumir sua posição atual no IME-USP.
Sua pesquisa se desenvolve principalmente nas áreas de sistemas dinâmicos, teoria ergódica, combinatória e probabilidade — justamente algumas das conexões que orientam o percurso do livro.
Yuri Lima é membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências para o período 2024–2028 e Young Affiliate da TWAS para o período 2024–2029. Em 2021, um artigo escrito em colaboração com Omri Sarig recebeu menção honrosa no Prêmio SBM. Em 2025, foi um dos contemplados com o Prêmio Jacob Palis Fulbright–ABC.
Essas informações ajudam a situar o livro: a introdução à área é conduzida por um pesquisador cuja atividade acadêmica se desenvolve dentro do próprio campo apresentado ao leitor.
A semifinal do Jabuti Acadêmico
O Prêmio Jabuti Acadêmico é a vertente da premiação da Câmara Brasileira do Livro dedicada à produção acadêmica, científica, técnica e profissional.
A edição de 2026 recebeu 2.085 inscrições. De acordo com o regulamento, as obras são avaliadas segundo critérios que incluem relevância e pertinência científicas, qualidade editorial e potencial de impacto, em um processo acompanhado por auditoria independente.
Em cada categoria, dez títulos são selecionados para a semifinal. Posteriormente, cinco avançam à condição de finalistas, e o vencedor é anunciado durante a cerimônia de premiação. As listas são divulgadas em ordem alfabética, sem classificação entre os selecionados.
O status correto da obra em 18 de julho de 2026 é, portanto:
Semifinalista do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, na categoria Matemática, Probabilidade e Estatística.
Os cinco finalistas estão previstos para ser anunciados em 27 de julho de 2026, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Niterói. A cerimônia de premiação está marcada para 11 de agosto de 2026, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Prêmios não substituem a leitura e não determinam, sozinhos, a importância de um texto. Uma seleção como essa, no entanto, pode ampliar a circulação de trabalhos que normalmente permaneceriam restritos a comunidades acadêmicas relativamente pequenas.
No caso de Introdução aos Sistemas Dinâmicos, a semifinal também chama atenção para o trabalho editorial da Sociedade Brasileira de Matemática e para a importância da publicação, em português, de textos voltados à formação científica.
Dois livros, um mesmo título
Quem procurar pelo título precisa estar atento: a bibliografia matemática brasileira já possuía outro livro chamado Introdução aos Sistemas Dinâmicos, escrito por Jacob Palis Jr. e Welington de Melo.
Publicado pelo IMPA na Coleção Projeto Euclides, o texto de Palis e de Melo tornou-se uma referência da literatura matemática brasileira, com foco em dinâmica diferenciável, estabilidade estrutural e sistemas de Morse–Smale.
O livro de Yuri Lima, publicado pela SBM em 2025, apresenta outro percurso de entrada, que passa pelas equações diferenciais, pela mecânica celeste, pela dinâmica do intervalo e do círculo e pela dinâmica simbólica.
As duas obras não são versões, adaptações ou substituições uma da outra. Foram escritas por autores diferentes, publicadas por editoras diferentes e concebidas em contextos distintos.
A coincidência de títulos revela, de certo modo, uma característica da própria área: não existe um único caminho para apresentar os sistemas dinâmicos. Cada autor precisa escolher seus problemas iniciais, suas ferramentas e a sequência de ideias que conduzirá o leitor.
Matemática também é cultura escrita
Um livro de matemática não é apenas um repositório de definições e teoremas. É uma sequência de escolhas sobre o que apresentar, em que ordem, com quais exemplos, com quais motivações e para qual leitor.
Escrever uma introdução exige decidir o que pode ser pressuposto, o que precisa ser explicado e quais conexões ajudam a revelar a estrutura de uma área. A exposição matemática também possui ritmo, perspectiva e projeto editorial.
Quando esse trabalho é realizado em português, o resultado participa da construção de uma linguagem científica compartilhada. Conceitos, argumentos e modos de exposição passam a circular entre estudantes, professores e pesquisadores sem depender exclusivamente de traduções ou de bibliografia publicada em outros idiomas.
Independentemente das próximas etapas do prêmio, a presença de Introdução aos Sistemas Dinâmicos entre os semifinalistas já produz um efeito importante: coloca um texto de matemática especializada diante de um público mais amplo e lembra que a produção acadêmica também pertence à cultura do livro.
O exemplar de Introdução aos Sistemas Dinâmicos, de Yuri Lima, está disponível na Livros de Matemática. A relação completa dos títulos selecionados pode ser consultada na lista oficial de semifinalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.








