
Todo dia 23 de abril, o mundo celebra o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, data instituída pela UNESCO em 1995 para promover a leitura, a indústria editorial e a proteção dos direitos de quem escreve. Em 2026, essa celebração ganha um significado especial para o Brasil: é exatamente neste 23 de abril que o Rio de Janeiro encerra seu ciclo como Capital Mundial do Livro da UNESCO — o primeiro na história a ser atribuído a uma cidade de língua portuguesa. Neste artigo, resgatamos a origem da data, seu simbolismo global e o que ela representa para quem acredita no livro — inclusive o livro de matemática — como ferramenta de transformação intelectual e social.
A origem catalã da tradição
A celebração do 23 de abril não nasceu em Paris nem em uma resolução formal da ONU. Ela tem raízes populares, em Barcelona. Em 1923, a Câmara Oficial do Livro da Catalunha passou a marcar nessa data uma homenagem a Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote. O dia coincide com o Dia de São Jorge (Sant Jordi), padroeiro da região, em que a tradição manda presentear quem se ama com uma rosa — e, por iniciativa dos livreiros catalães, também com um livro. A mistura entre cultura popular, romance e comércio literário transformou o 23 de abril em um dos dias mais intensos do calendário editorial europeu.
A oficialização pela UNESCO em 1995
Foi em novembro de 1995 que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura declarou, por unanimidade, o 23 de abril como Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. A escolha da data articulou o simbolismo catalão com uma coincidência histórica poderosa: 23 de abril é também o aniversário da morte de Miguel de Cervantes, de William Shakespeare e do cronista peruano Inca Garcilaso de la Vega — três autores fundadores das literaturas ocidental e latino-americana. Desde então, mais de cem países celebram a data com feiras, leituras, doações e campanhas de alfabetização.
Dia Mundial do Livro x Dia Nacional do Livro
Entre os leitores brasileiros, é comum confundir duas datas que convivem no calendário. O Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, é internacional e foi instituído pela UNESCO. Já o Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, é uma data brasileira criada em 1967 para marcar a fundação da Biblioteca Nacional, em 1810, no Rio de Janeiro. Há ainda o Dia Nacional do Livro Infantil, em 18 de abril, em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato. São datas complementares, cada uma reforçando uma dimensão diferente da cultura do livro no país.
Por que a data é importante
O Dia Mundial do Livro carrega pelo menos quatro missões: promover o hábito da leitura em uma sociedade cada vez mais fragmentada pela atenção digital, fortalecer a cadeia editorial — livreiros, editoras, tradutores, revisores, ilustradores —, defender os direitos autorais que remuneram o trabalho intelectual e, acima de tudo, afirmar o livro como ponte entre culturas e gerações. Em um mundo em que o conhecimento circula de forma cada vez mais algorítmica, o livro permanece como um dos poucos artefatos capazes de sustentar um raciocínio longo, uma ideia complexa, um pensamento que não cabe em uma tela.
O retrato da leitura no Brasil em 2024-2025
A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2024, trouxe um dado que acendeu o alerta no setor editorial: pela primeira vez na série histórica, a proporção de não-leitores superou a de leitores. 53% da população brasileira com cinco anos ou mais não leu nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. O país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Curiosamente, o preço dos livros foi citado como barreira por apenas uma parcela pequena dos entrevistados — indicando que o desafio brasileiro não é, principalmente, de acessibilidade financeira, mas de hábito, engajamento e distribuição.
O Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro 2025-2026
Em outubro de 2023, a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, anunciou uma designação histórica: o Rio de Janeiro foi escolhido como Capital Mundial do Livro 2025, a primeira cidade de língua portuguesa a receber o título. O ciclo de celebrações teve início em 23 de abril de 2025 e se encerra exatamente em 23 de abril de 2026, quando o bastão passa para Rabat, no Marrocos. O reconhecimento levou em conta o patrimônio literário carioca — da Biblioteca Nacional ao Real Gabinete Português de Leitura, da Academia Brasileira de Letras à Bienal do Livro — e um plano de ação que inclui a modernização da rede municipal de bibliotecas, o programa Livro nos Trilhos, a Book Parade e a criação do Congresso de Literatura Latino-Americano.
O que fica para o Brasil depois de 2026
Títulos internacionais são passageiros; legados, idealmente, não. O desafio brasileiro, agora, é transformar a visibilidade obtida durante o ciclo do Rio em política pública duradoura e em mudança mensurável nos indicadores de leitura. O reconhecimento da UNESCO colocou o Rio — e por extensão, o Brasil — no centro do debate global sobre o papel do livro no desenvolvimento social. Cabe ao setor editorial, às escolas, às bibliotecas e às livrarias especializadas manter vivo esse movimento nos anos seguintes, ampliando o acesso ao livro em todas as regiões do país.
Livros técnicos, pensamento crítico e o valor da matemática
Há uma dimensão da celebração que raramente ganha destaque, mas que é central para quem atua com educação: livros não formam apenas leitores, formam pensadores. Ler ficção fortalece a empatia e o vocabulário. Ler ensaio afia a argumentação. Ler um bom livro de matemática — uma demonstração linha por linha, uma teoria construída capítulo a capítulo — faz algo ainda mais raro nos dias de hoje: treina o leitor a sustentar um raciocínio longo sem perder o fio. Autores como Elon Lages Lima, Abramo Hefez, Marcelo Viana e Malba Tahan mostraram, cada um à sua maneira, que ensinar matemática é, em larga medida, ensinar a pensar. Celebrar o Dia Mundial do Livro, no nicho da matemática, é reconhecer que leitura técnica também é leitura — e que formar leitores técnicos é formar cidadãos capazes de interpretar gráficos, contratos, dados e políticas públicas com autonomia.
Uma reflexão de quem atua no setor
“Durante anos trabalhando com livros de matemática, entendi que o acesso a um bom livro técnico ainda é, no Brasil, uma fronteira invisível. Há leitores dispostos em todo canto do país — o que falta, muitas vezes, é o livro chegar até eles. Celebrar o Dia Mundial do Livro, para quem atua nesse recorte, é reafirmar um compromisso prático: o de que a leitura exigente, aquela que forma o pensamento lógico e crítico, não pode continuar sendo um privilégio geográfico ou econômico.” — Pablo Diego Regino, fundador e diretor da livrosdematematica.com.
Como celebrar o Dia Mundial do Livro em 2026
Você não precisa de grandes eventos para celebrar a data. Presenteie alguém com um livro, na tradição catalã que originou a celebração. Visite uma biblioteca pública — no Rio de Janeiro, a programação do encerramento do ano como Capital Mundial do Livro merece atenção. Compre de livrarias independentes e especializadas, que mantêm no catálogo títulos que as grandes redes muitas vezes não estocam. Leia algo fora da sua zona de conforto: se só lê ficção, experimente um livro de divulgação científica; se só lê técnico, tente um clássico da literatura. E, principalmente, apresente um livro a quem ainda não descobriu o prazer e a utilidade de ler.
O livro, sempre
Mais de três décadas depois de sua oficialização pela UNESCO, o Dia Mundial do Livro continua sendo, ao mesmo tempo, uma celebração e um chamado. Celebração daquilo que o livro já foi e ainda é — veículo de conhecimento, memória e beleza. Chamado à responsabilidade de manter essa tradição viva, em um país que precisa reconquistar milhões de leitores. Na livrosdematematica.com, acreditamos que toda celebração do livro é também uma celebração do pensamento. E o pensamento matemático — rigoroso, belo, útil, libertador — é parte essencial dessa herança. Neste 23 de abril, abra um livro. O gesto simples de virar uma página é, por si só, a melhor homenagem possível a uma tradição que atravessa séculos, continentes e gerações.

