No fim de abril de 2026, um vídeo viralizou afirmando que o ChatGPT havia resolvido, em apenas 80 minutos, um problema matemático em aberto desde os anos 60. A história chamou atenção — mas, como costuma acontecer com conteúdos virais, a realidade é mais complexa (e mais interessante).
Houve, sim, um avanço matemático real, envolvendo inteligência artificial e validado por especialistas como Terence Tao. No entanto, há confusões importantes sobre quem resolveu, como resolveu e qual foi o papel real da IA.
Resumo rápido
- Não foi o ChatGPT comum.
- Não foi Jared Lichtman quem resolveu esse problema específico.
- Foi um usuário amador utilizando um modelo avançado.
- Especialistas como Terence Tao validaram e refinaram a prova.
- A versão viral simplifica e exagera diversos pontos.
O que são conjuntos primitivos?
Um conjunto primitivo é um conjunto de números inteiros maiores que 1 em que nenhum elemento divide outro.
Por exemplo: se o número 2 está no conjunto, então 4, 6, 8 e outros múltiplos não podem estar. O conjunto dos números primos é o exemplo mais conhecido, mas existem muitos outros.
Esse tipo de estrutura é central na teoria dos números, área fundamental da matemática.
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A conjectura de Erdős: contexto essencial
Em 1988, o matemático Paul Erdős formulou uma conjectura sobre conjuntos primitivos: entre todos os possíveis, o conjunto dos números primos maximizaria uma soma específica associada a esses conjuntos.
Essa conjectura foi demonstrada em 2022 por Jared Lichtman — um feito importante, mas distinto do problema que viralizou recentemente.
Quem é Jared Lichtman?
Jared Duker Lichtman é um matemático norte-americano especializado em teoria analítica dos números. Ele ganhou destaque internacional ainda jovem ao resolver, em 2022, a chamada conjectura dos conjuntos primitivos de Erdős, um problema proposto em 1988 por Paul Erdős.
Na época, Lichtman era doutorando na Universidade de Oxford, sob orientação de James Maynard, um dos principais nomes da teoria dos números contemporânea. Sua prova chamou atenção por utilizar argumentos relativamente elementares para um problema que resistia há décadas, reforçando sua reputação como um pesquisador com forte intuição matemática.
No caso do Problema #1196, Lichtman não foi o autor da solução inicial gerada com auxílio de inteligência artificial. Seu papel foi diferente, mas igualmente importante: participar da validação, interpretação e refinamento do argumento produzido, ajudando a transformar uma saída bruta em um resultado matematicamente consistente e compreensível para a comunidade.
O que o vídeo viral afirma
O vídeo que circulou apresenta algumas afirmações principais:
- Que o ChatGPT resolveu um problema em aberto desde os anos 60.
- Que Lichtman teria sido o autor da solução.
- Que matemáticos utilizavam há décadas o mesmo tipo de abordagem.
- Que a IA encontrou um caminho completamente novo.
- Que isso pode impactar profundamente a teoria dos números.
Algumas dessas afirmações são parcialmente verdadeiras, mas outras estão incorretas ou simplificadas em excesso.
Vídeo viral versus realidade
| Afirmação | O que é realmente verdade |
|---|---|
| “ChatGPT resolveu o problema” | Foi utilizado um modelo específico e avançado, não uma versão comum de uso geral. |
| “Jared Lichtman resolveu” | A solução inicial foi gerada por um usuário amador; Lichtman participou da validação e refinamento. |
| “Todos usavam o mesmo método há 90 anos” | Essa descrição simplifica excessivamente a diversidade de abordagens na matemática. |
O que realmente aconteceu
O problema envolvido é o Problema #1196 de Erdős, proposto em 1968.
Um jovem chamado Liam Price, sem formação avançada em matemática, utilizou um modelo avançado de IA para explorar o problema. O sistema gerou uma proposta de solução em cerca de 80 minutos.
No entanto, essa solução inicial não estava pronta para publicação. Foi necessário o trabalho de matemáticos experientes — incluindo Terence Tao e Jared Lichtman — para interpretar, reorganizar e validar o argumento.
Portanto, trata-se de um processo colaborativo entre IA, usuário e especialistas, e não de uma resolução automática.
O papel real da inteligência artificial
A IA não criou matemática completamente nova. O que ocorreu foi a combinação, de maneira inédita, de ferramentas já conhecidas dentro da teoria dos números.
Esse tipo de abordagem é relevante porque ultrapassa padrões tradicionais de pensamento. A IA não está limitada pelas convenções que normalmente guiam os matemáticos humanos.
Segundo Terence Tao, esse tipo de contribuição pode revelar conexões mais profundas entre diferentes áreas da matemática.
Impacto na teoria dos números
Se essa abordagem se mostrar consistente, pode influenciar não apenas esse problema específico, mas também outros problemas relacionados.
Mais importante ainda, ela sugere um novo modelo de trabalho matemático:
- Sistemas de IA exploram possibilidades não convencionais.
- Matemáticos especialistas analisam, validam e refinam os resultados.
Isso não substitui o trabalho humano, mas altera significativamente o processo de descoberta.
Reflexão: tradição versus inovação
O episódio levanta uma questão relevante: até que ponto os métodos utilizados na matemática refletem necessidades reais, e até que ponto são fruto de tradição?
Ao longo da história, muitos problemas considerados difíceis tornaram-se simples quando abordados de maneira diferente. A inteligência artificial pode funcionar como um catalisador para esse tipo de mudança.
No entanto, as tradições matemáticas também têm seu papel, pois organizam o conhecimento e evitam erros. O avanço mais promissor parece estar na combinação entre intuição humana e exploração computacional.
“O mais interessante no Problema #1196 não é que uma inteligência artificial tenha encontrado uma solução — é o tipo de solução que ela encontrou.
Durante décadas, a matemática avançou seguindo caminhos que, embora sólidos, também carregam uma certa inércia intelectual. Métodos se tornam padrões, padrões viram tradição, e tradição passa a guiar o que consideramos ‘natural’ ou ‘elegante’ tentar.
O que aconteceu aqui sugere algo diferente: não que esses caminhos estejam errados, mas que eles não são os únicos possíveis. A IA não substitui o matemático — mas pode expor alternativas que simplesmente não exploramos, não por impossibilidade, mas por hábito.
O Problema #1196 não foi resolvido por uma IA sozinha, nem por um amador isolado, nem por especialistas trabalhando de forma tradicional. Ele foi resolvido pela interação entre exploração livre, intuição humana e validação rigorosa.
E talvez esse seja o ponto mais relevante: não estamos diante de uma substituição, mas de uma mudança na forma como o conhecimento matemático pode evoluir.”
Pablo Diego Regino – Fundador e diretor de livrosdematematica.com
Conclusão
O Problema #1196 de Erdős foi, de fato, resolvido com participação relevante de inteligência artificial. No entanto, a narrativa viral simplifica excessivamente o que aconteceu.
O resultado surgiu da interação entre um usuário curioso, um modelo avançado de IA e matemáticos experientes que validaram e estruturaram a solução.
Mais do que um caso isolado, esse episódio aponta para uma possível mudança na forma como a matemática é produzida.
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