Por Pablo Diego Regino — fundador e diretor da livrosdematematica.com
Escrevo este texto em 23 de abril de 2026, no Dia Mundial do Livro. Não é uma data qualquer para quem trabalha com livros no Brasil. E não é, tampouco, uma data qualquer para quem vive no Rio de Janeiro: é exatamente hoje que a cidade encerra seu ciclo como Capital Mundial do Livro da UNESCO — o primeiro título dessa natureza atribuído, em toda a história do programa, a uma cidade de língua portuguesa.
Entre 23 de abril de 2025 e 23 de abril de 2026, o Rio ocupou um lugar simbólico importante no mapa mundial da leitura. A partir de amanhã, o título passa a Rabat, no Marrocos. Antes de virarmos a página do ciclo carioca, vale uma reflexão honesta sobre o país que ficou visível para o mundo durante esses doze meses.
A crise silenciosa da leitura no Brasil
A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, conduzida pelo Instituto Pró-Livro em 2024, trouxe o dado mais grave do setor editorial brasileiro desde o início da série histórica, em 2007: pela primeira vez, a proporção de não-leitores superou a de leitores. 53% da população brasileira com cinco anos ou mais não leu nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Em números absolutos, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos.
A queda atinge todas as faixas etárias, todas as classes sociais e todas as regiões. Não se trata de um fenômeno isolado. É um movimento estrutural.
Ainda mais revelador é o motivo apontado pelos entrevistados. Não é, principalmente, o preço dos livros. Os motivos mais recorrentes foram falta de tempo (entre quem ainda lê) e falta de gosto ou hábito (entre quem não lê).
Isso muda a natureza do diagnóstico. Se o preço fosse a barreira central, a solução seria principalmente econômica. Como a barreira é o hábito e o engajamento, a resposta precisa ser muito mais ampla — envolve escola, família, mídia, bibliotecas, livrarias, ambiente digital e política cultural. Envolve, também, distribuição.
O problema invisível: acesso e distribuição
Há um aspecto do mercado editorial brasileiro que raramente aparece nas conversas públicas sobre leitura: o livro não chega a boa parte do país. Cidades médias e pequenas contam com pouquíssimas livrarias físicas. Regiões inteiras dependem exclusivamente do comércio online e das entregas por transportadora ou Correios. Nichos editoriais específicos — matemática, ciências exatas, filosofia acadêmica, clássicos universitários — estão ausentes até em grandes redes das capitais.
Quando um professor do interior do Ceará, um pesquisador de pós-graduação em Manaus ou um estudante olímpico de uma escola pública no Maranhão precisa de um livro técnico de referência, ele depende, em boa medida, de lojas especializadas com alcance nacional. Não é questão de preferência: é a única estrutura disponível.
Isso significa que o desafio brasileiro da leitura não se resume a formar leitores. É também logístico. É sobre fazer o livro chegar a quem o quer.
Por que a leitura técnica importa — e por que a matemática entra nessa conversa
Ler ficção fortalece a empatia e o vocabulário. Ler ensaio afia a argumentação. Mas ler um bom livro técnico — uma demonstração matemática conduzida linha por linha, uma teoria construída capítulo a capítulo — faz algo que se tornou raro no ambiente digital em que vivemos: treina o leitor a sustentar um raciocínio longo, estruturado, sem perder o fio.
Essa capacidade não é um luxo acadêmico. É uma das habilidades cognitivas mais decisivas para a vida contemporânea. Interpretar um contrato, entender um gráfico de saúde pública, avaliar um dado eleitoral, seguir um argumento jurídico ou econômico — tudo isso pede o mesmo tipo de atenção prolongada que um livro técnico ensina a exercer.
Autores brasileiros como Elon Lages Lima, Abramo Hefez, Marcelo Viana e Malba Tahan provaram, cada um à sua maneira e em seu tempo, que ensinar matemática é, em larga medida, ensinar a pensar. O livro de matemática — mesmo o mais exigente — não é um objeto técnico isolado do restante da cultura. Ele é parte dela, e talvez uma de suas expressões mais puras.
Por isso, quando discutimos o Dia Mundial do Livro no Brasil, não basta falar apenas de romances ou de literatura infantil. Precisamos falar também de livros técnicos, científicos e universitários. Precisamos falar do leitor adulto que quer se aprofundar, do professor que quer se atualizar e do estudante que quer ir além do livro didático. Esse leitor existe em todo canto do Brasil e merece chegar até o livro com a mesma facilidade de quem vive em São Paulo ou no Rio.
O que aprendi conduzindo a livrosdematematica.com
Há anos opero uma livraria dedicada exclusivamente a livros de matemática, voltada ao mercado brasileiro. Durante esse período, aprendi algo que talvez seja o aprendizado mais importante da minha trajetória profissional: o acesso ao livro técnico no Brasil continua sendo uma fronteira invisível.
Há leitores interessados em todos os cantos do país — de Boa Vista a Uruguaiana, de Juazeiro do Norte a Porto Velho. O que falta, muitas vezes, não é o desejo de ler. É o livro chegar até eles. É a livraria especializada existir. É a curadoria apontar os títulos certos. É o pacote sair da editora, passar pela transportadora e bater na porta de quem o encomendou em tempo razoável e em bom estado.
Essa é uma conversa pouco romântica, eu sei. Ninguém celebra o Dia Mundial do Livro falando de logística, frete e estoque. Mas é essa infraestrutura — prosaica, muitas vezes invisível para o leitor final — que decide, na prática, quem tem acesso ao conhecimento especializado no Brasil e quem não tem.
É por isso que continuo acreditando que uma livraria especializada de alcance nacional não é apenas um negócio. É também um pequeno gesto de política cultural: uma forma concreta de encurtar a distância entre o livro e o leitor, e de fazer com que a leitura exigente — aquela que forma o pensamento lógico e crítico — não seja um privilégio geográfico ou econômico.
Reconquistar leitores é possível — e urgente
O Brasil perdeu quase sete milhões de leitores em quatro anos. Recuperá-los, e idealmente ampliar esse universo, não vai acontecer por inércia. Vai depender de escolas que ensinem a ler com profundidade, de famílias que cultivem o livro como presença doméstica, de bibliotecas públicas bem equipadas, de políticas culturais duradouras, de mídia que continue valorizando a leitura longa e de livrarias — grandes, pequenas, especializadas — capazes de sobreviver e de chegar onde a leitura ainda é rara.
O título de Capital Mundial do Livro que o Rio de Janeiro ostentou por doze meses foi uma oportunidade rara de visibilidade internacional. O teste real, porém, começa agora: transformar essa visibilidade em transformação duradoura nos indicadores brasileiros de leitura.
Neste 23 de abril, o convite que faço — a mim mesmo, antes de mais ninguém — é que deixemos de lado, por um momento, as celebrações genéricas do Dia do Livro, e olhemos para o quadro completo. O Brasil não está lendo menos por falta de bons livros. Está lendo menos por uma combinação de fatores que vão da atenção fragmentada à distribuição precária, passando pela erosão do hábito e pela desvalorização do tempo de leitura longa.
Nenhum desses problemas se resolve com um post comemorativo. Mas todos começam a se resolver quando reconhecemos que existem.
Reconquistar os leitores do Brasil é, para mim, a tarefa editorial mais importante desta década. É uma tarefa que cabe ao governo, sim — mas cabe também a cada editora, a cada livraria, a cada professor, a cada leitor que decide abrir um livro, inteiro, do começo ao fim. Inclusive, quem sabe, um livro de matemática.

